Diga antes que o bonde volte
Primeiras páginas
No alto de Santa Teresa, onde a Rua Almirante Alexandrino começa a desistir de ser rua e o bonde faz a última curva antes do fim da linha, há um casarão amarelo que ninguém repara. A tinta descascou em mapas de países que não existem. A varanda de ferro enferrujou bonita, e nas tardes de chuva solta um cheiro de moeda antiga que fica na mão de quem se apoia nela. Uma buganvília velha derrama-se por cima do muro e larga flores no calçamento, e as flores ficam ali, roxas, até o bonde passar e o vento delas mudar de lugar.
Do portão, quem olha para baixo vê o mar aparecer entre os telhados, como se alguém tivesse esquecido um pedaço de céu no chão. De noite, a dama-da-noite do quintal abre e perfuma a ladeira inteira, e os vizinhos mais antigos juram que dá para sentir o cheiro lá do Largo dos Guimarães, quando o vento é de terra.
Ao lado da porta, uma placa de madeira pintada à mão, com as letras um pouco tortas de quem escreveu com pressa de não mudar de ideia:
Atende-se uma vez. A sessão dura uma volta do bonde.
Não tem número de telefone, não tem nome, não tem horário. Os turistas tiram foto achando que é obra de algum artista do bairro. Os vizinhos já se acostumaram a ver gente subindo a ladeira com um papelzinho amarelado na mão, a camisa colada nas costas, parando no portão para recuperar o fôlego e olhando para trás, lá para baixo, para o caminho de volta, como quem ainda pode desistir.
Dentro da casa, quem chega ouve primeiro o ventilador de teto, que range na mesma nota há trinta anos. Depois sente o café, coado em pano, forte, com uma ponta de rapadura. Depois vê a gata no parapeito, enorme, peluda, de um pelo tartaruga que mistura preto, caramelo e ferrugem como se alguém tivesse derramado café num tapete persa, de costas para tudo, e uma senhora pequena numa poltrona funda, com um caderno de capa de couro no colo, que levanta os olhos e sorri como se estivesse esperando exatamente aquela pessoa e mais ninguém.
E então, lá embaixo, na curva, o sino do bonde toca.
Quase ninguém desiste.
Ninguém sobe uma ladeira dessas por acaso.
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